quarta-feira, 22 de março de 2017

A mudança de uma cultura

Passei um tempo sem postar porque confesso: me bateu um desânimo... tive que refletir e me perguntar porque fico tentando desenvolver uma coisa que não vai refletir diretamente em mim (eu não danço mais profissionalmente), não me da retorno financeiro (ainda mais num país em crise) e me da muito trabalho, mas muito mesmo!

A impressão que tenho é que preciso implorar ao bailarino dizendo "por favor!! Acredite em mim, eu posso te ajudar a não lesionar tanto e a dar conta de executar esse tal passo que você não tem força ou flexibilidade pra fazer..."

Do jeito que eu sou eu treinava todo mundo de graça! Infelizmente não posso, porque no final do mês tenho que comprar minha comida e ainda pagar salário dos professores que trabalham comigo, além de imposto e aluguel.

Ai eu pensei, "vou largar 'isso tudo' e focar na minha carreira como cientista, arrumar um emprego numa faculdade e não lutar por mudança, ou ajudar outras pessoas a conquistarem o sonho DELAS!"

Decidi isso e duas horas depois já estava sentindo um vazio... porque esta não sou eu.

Então estou aqui de novo, mais uma vez tentando explicar a importância do treinamento complementar, da preparação física para bailarinos, da capacitação teórica de professores de dança e da implementação da Ciência da Dança no Brasil.
Para esclarecer um pouco, o campo da Ciência da Dança não existe no Brasil. Os estudos feitos com bailarinos (quando são feitos) acontecem nos programas de pós graduação em Ciências do Esporte.

Neste momento estou fazendo o meu doutorado na Inglaterra exatamente porque esta área é mais desenvolvida aqui. Além disso, estou sendo financiada pelo Governo Brasileiro para fazer minha pesquisa com bailarinos; fui contemplada com uma de apenas sete bolsas de estudo disputadas em todo o Brasil para a área da saúde.
Meu objetivo é tentar mudar a cultura da dança de que quanto mais melhor e de que o bailarino deve sofrer física e psicologicamente. Por mais que a poesia do sofrimento seja bonita, a realidade de quem sofre não tem tanta beleza assim.


(vide post abaixo)
http://noticias.bol.uol.com.br/fotos/bol-listas/2017/02/10/30-imagens-que-retratam-a-graca-o-sofrimento-e-beleza-por-tras-do-bale.htm#fotoNav=4


Hoje tenho vários projetos em andamento:

Dirijo o Bastidores Centro de Treinamento: com sede em Belo Horizonte é o primeiro centro de treinamento especializado em bailarinos. Contamos com uma equipe composta por profissionais de Educação Física, Fisioterapia e Nutrição. Utilizamos o método patenteado "BPM-Best Performance and Movement" desenvolvido  de acordo com as necessidades específicas dos bailarinos, além de exercícios de musculação, treinamento functional e pilates de solo pescritos considerando a individualidade de cada aluno.

Edito um livro contando com a participação de 16 pesquisadores do Brasil, França, Portugal e Reino Unido sobre todos os aspectos que devem ser considerados para a formação de um bailarino como ser humano completo. Desde as fases de desenvolvimento da criança, até aspectos biomecânicos, fisiológicos e psicológicos.

Promovo cursos teóricos a distância e presenciais (no Bastidores) para auxiliar na capacitação de professores e bailarinos, diminuindo  a lacuna existente entre a teoria da ciência e a prática da dança.

Sou uma dos mebros-fundadores da rede Brasil-UK para o desenvolvimento de trabalhos colaborativos na área da Ciência da Dança entre o Brasil e o Reino Unido.

Estou escrevendo o projeto do primeiro curso de pós-graduação em Ciências da Dança em parceria com uma universidade federal do Brasil, e publiquei um artigo sobre isso.

Mesmo com tantas iniciativas (descrevi apenas as que realizo com influência direita no Brasil) enfrento muitas dificuldades como:

1) a falta de reconhecimento do trabalho; tudo que é novo precisa ser digerido. Ainda mais quando se trata da mudança de uma cultura.

2) a crise financeira do Brasil; não só o Bastidores enquanto pequena empresa que precisa sobreviver ao momento que entamos passando, mas também os bailarinos, professores e escolas de dança que estão sofrendo para arcar com os investimentos de um trabalho complementar e de capacitação como o oferecido.

3) a falta de visibilidade; a maioria do público da dança não sabe o que é a Ciência da Dança, como o treinamento pode mudar a vida de um bailarino ou mesmo como fazer isso. É então que venho até vocês.

Vamos juntos divulgar o que é produzido na Ciência da Dança, vamos juntos transformar a carreira de bailarinos, vamos juntos porque a dança não se faz individulamente. Não se tem apresentação se não tem platéia, não tem bailarino se não tem saúde.
Faço este pedido não como uma divulgação pessoal do meu trabalho. Faço este pedido em prol do desenvolvimento da Ciência da Dança no Brasil.

Atenciosamente,


Bárbara Pessali-Marques

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Hoje foi um dia mágico. Um dia que eu não vou me esquecer nunca mais. O dia que eu fui convidada para conhecer o trabalho de preparação física na Royal Ballet. Sim! O Bastidores estava nos bastidores da Royal. A fisioterapeuta Moira nos mostrou cada cantinho daquela casa situada em Londres.

O final de semana já havia começado com muita emoção por ter sido uma das representantes da Ciência da Dança do Brasil (juntamente com Clara Gam e Adriano Bittar) a apresentar o meu trabalho no Carrers Days que aconteceu do Conservatório de Dança e Música Trinity Laban, também em Londres.



Fiquei sabendo que a batalha de buscar conhecimento em como aumentar o desempenho em bailarinos é compartilhada juntamente com a batalha de convencer os bailarinos da importância da preparação física! Tivemos uma mesa redonda para discutir como tornar esse conhecimento mais acessível aos bailarinos, pois a resistência em não cuidar no corpo corretamente vai além da falta de recursos financeiros para arcar com os treinamentos. A responsável pela preparação física dos bailarinos da companhia Alvin Ayle disse que repete aos seus bailarinos todos os dias “seu corpo é seu instrumento de trabalho, se você não cuidar do seu corpo, quem vai cuidar?”.

Depois de conhecer tantas pessoas importantes da área da ciência da dança e de ser reconhecida pelo trabalho que estou fazendo tanto na pesquisa quanto no Bastidores quase não consegui dormir. No dia seguinte levantei cedo pra ficar na porta da casa de óperas esperando, contemplando e meditando sobre o tamanho do sonho que me esperava lá dentro. As 11 horas Moira, uma das fisioterapeutas, veio nos receber com um sorriso gigantesco e muita boa vontade. Nos introduzimos brevemente e começamos nossa jornada.

As primeiras salas que nos foram apresentadas (sim plural... SALAS) foram as de preparação física! Os bailarinos tem atendimento fisioterápico para reabilitação, mas também tem fortalecimento com pilates e exercícios de musculação (opa! Coincidência nenhuma serem as mesmas atividades desenvolvidas no Bastidores, afinal de contas o Bastidores é o primeiro centro de treinamento especializado em bailarinos do Brasil e tem se inspirado nos centro de referência como a Royal).






O tempo todo os bailarinos se movimentavam entre as salas. Moira disse que a sala de ginástica acaba sendo, também, um momento social, no qual além de preparar o corpo deles para a demanda que o ballet exige (o Royal tem uma carga de espetáculos de 4 dias por semana!!!!!) eles conversam e descontraem (outra feliz “coincidência” com o Bastidores).

Fomos também na sala de sapatilhas; eles têm acesso a quantas sapatilhas precisarem e da marca e modelo que quiserem!


Após assistimos a barra da aula em que estavam se preparando para o espetáculo daquele dia. Em seguida conhecemos toda a estrutura do prédio, todas as salas de ballet e ensaio, onde os figurinos são confeccionados, por trás do palco, cantina, espaço de descanso para os bailarinos, todos os cantinhos daquele prédio de mais de 5 andares. E além de tudo... assistimos a aula!!!!





Então sentamos para conversar e apresentar nossos trabalhos. Afinal de contas, um centro de treinamento como o deles não seria perfeito se não houvesse pesquisa. Então expusemos nossas pesquisas, plantamos sementinhas e agora vamos aguardar o florescimento de algo muito especial.

Para fechar com chave de ouro fomos assistir o espetáculo em cartaz: 




Ainda estou no trem voltando de Londres para Crewe. Muitas ideias para o meu doutorado, mais ideias ainda para o Bastidores. Estou exausta, mas muito feliz! E por isso quis escrever esse post logo agora, mesmo que minha mão ainda esteja trêmula. Esse final de semana tive certeza de que estou no caminho certo! Segunda feira tem mais! Apresentarei minha pesquisa na Wolvehamton University, em um primeiro encontro para discutir uma parceria de colaboração entre o Brasil e o UK para o desenvolvimento da Ciência da Dança. Estou vivendo um sonho e a concretização desse sonho é o Bastidores.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

O que a PREPARAÇÃO FÍSICA tem em comum com o CINTO DE SEGURANÇA?
Desabafo de uma cientista cansada.




Convencer um bailarino de que ele precisa preparar o seu corpo para dançar é quase igual convencer um motorista de que ele precisa usar o cinto de segurança. Todo mundo sabe que precisa pra ficar saudável/seguro, mas ninguém quer fazer/usar. 

Essa necessidade imediatista pelo resultado somada a lei da sobrevivência do menor esforço é um tiro pela culatra, porque a curto prazo o bailarino que não faz preparação física pode não se machucar, mas a longo prazo o pensamento "aaah se eu tivesse me protegido" vai surgir eventualmente.  

Muitas vezes a negação à preparação física se dá ao fato de que o processo é desgastante (sim, é, de certa forma, uma carga adicional de exercícios), outras vezes se dá pela falta de conhecimento (não porque o conhecimento não esteja sendo produzido, mas sim porque muitos ainda não quiseram se abrir para ele).

Meu papel como cientista passa longe de apenas produzir o conhecimento. Me sinto na obrigação de divulgá-lo porque sei a diferença que ele pode fazer na carreira de um bailarino. Mas o que adianta os cientistas produzirem e divulgarem, se o bailarino não está interessado? Se é mais cômodo continuar do jeito que está... uma vez que mudar é difícil, e o novo causa resistência e estranhamento. 

Eu poderia apenas pesquisar como profissão e publicar o meu trabalho em artigos científicos de linguajar complicado e de pouco acesso. Mas fico tentando mastigar o conhecimento para pessoas que não querem engolir!

Já usei todos os meus argumentos e comprovações científicas para destacar a importância e a necessidade da preparação física para os bailarinos (vide posts anteriores), cansei de fazê-lo de graça ou por um preço irrisório porque coloco tanto amor nesse trabalho que quero apenas distribuí-lo. Frustrações me fizeram ver a realidade e enxergar mais racionalmente.

Muitas vezes tenho vontade de desistir de tentar preencher essa lacuna gigantesca entre a ciência da dança e a prática da dança, mas não desisto porque sei que tudo o que é novo é desafiador e tudo o que é desafiador é difícil! 

Longe de mim me comparar a Einstein, mas perto de mim me inspirar nele. Quando primeiro propôs sua teoria da luz e a conexão entre o espaço e o tempo ouviu que seu trabalho era "RADICAL" e suas suposições mais "ARTÍSTICAS DO QUE FÍSICAS"!

Posso ouvir ainda por muito tempo que a preparação física é desnecessária ou uma perda de tempo dentro da aula de ballet, porque quando esse pensamento não existir mais, lembrarão (mesmo que vagamente) da minha luta (e de todos que estão comigo) nessa batalha. 

Obrigada àqueles que acreditam no trabalho e me motivam a continuar. Estarei sempre aberta aos que querem aprender e buscar conhecimento comigo (porque estarei sempre tentando crescer) mas não vou mais abrir os braços pra quem não quiser me abraçar.









quinta-feira, 31 de março de 2016

"O primeiro centro especializado em condicionamento de bailarinos foi fundado no Brasil. Dirigido por um dos membros do IADMS, a doutoranda Bárbara Pessali-Marques, o Bastidores Centro de Treinamento promove preparação física e reabilitação para bailarinos no sudeste do Brasil. Com uma equipe multidisciplinar formada por Fisioterapeutas, profissionais de Educação Física e Nutricionistas com conhecimento específico sobre a saúde dos bailarinos, o estúdio também oferece cursos para professores de dança e conduz pesquisas clínicas na área."

Foi assim que a pesquisadora em dança Clara Fisher Gam citou o trabalho realizado no Bastidores em mais um post foi publicado por ela na International Association for Dance and Medicine Science sobre a realidade da pesquisa, preparação física e prevenção de lesões em bailarinos no Brasil.

Não perca o artigo completo em:

http://www.iadms.org/blogpost/1177934/242346/Bridging-Dance-and-Health-in-Brazil-III-Taking-Action


Best Performance and Movement
Bastidores Centro de Treinamento Personalizado
Bailarina: Luiza Castilho
Foto: Bárbara Pessali Marques





quinta-feira, 17 de março de 2016

Como o pensamento pode influenciar na sua carreira como bailarino? Já ouviu falar em AUTOEFICÁCIA?

Quando digo aos meus alunos que o pensamento tem poder, e que o primeiro passo para a realização de um sonho é o pensamento de que ele é capaz de realizá-lo, não estou me referindo a algo simbólico, mas sim a uma realidade que pode ser comprovada cientificamente.


Muitos autores tem estudo sobre a AUTOEFICÁCIA, mas poucas pesquisas foram feitas estudando a autoeficácia em bailarinos e portanto, firmei uma parceria com uma pesquisadora e professora da Universidade do Estado de Minas Gerais para desenvolvermos pesquisas sobre esse tema.

Camila Bicalho é Mestre em Ciências do Esporte pela Universidade Federal de Minas Gerais/Laboratório de Psicologia do Esporte e minha parceira para a realização futuros estudos nessa área envolvendo bailarinos.

Resumidamente a Autoeficácia refere-se aos julgamentos que as pessoas fazem das suas próprias habilidades. Essa avaliação é produto de complexos processos de autoperssuasão e seu processamento cognitivo é proveniente de experiências pessoais de desempenho, dentre outros fatores que podem influenciar na capacidade que a pessoa ACHA que tem.

Após uma pesquisa na literatura encontramos apenas seis artigos que pesquisaram sobre a autoeficácia em bailarinos e esses estudos concluíram que a autoeficácia, ou seja, a forma com que a pessoa enxerga o seu potencial, é capaz de influenciar o desempenho do bailarino, seja ele profissional, amador, adulto ou criança.

Isso significa que os bailarinos que acreditam que podem realizar um movimento, ou conquistar um papel têm mais chances, CIENTIFICAMENTE COMPROVADAS, de fazer isso virar realidade.

Então, acredite no seu potencial, não deixe que ninguém te desvalorize ou diga que você não é capaz, que não tem o perfil, que nunca vai chegar lá!

Autor desconhecido


Logo logo publicarei um outro post sobre a influência do professor na formação da autoeficácia do seu aluno e como isso pode alavancar ou destruir uma carreira.

Mas lembre-se! ACREDITAR que você é capaz já é meio caminho andado. Afinal de contas... o pensamento tem poder!




Referencias

Bandura, A. (1993). Perceived self-efficacy in cognitive development and functioning. Educational Psychologist, 28(2), 117-148. doi: 10.1207/ s15326985ep2802_3

Bandura, A. (2001). Social cognitive theory: An agentic perspective. Annual Review of Psychology, 52(1), 1-26

CALVO-MERINO, Beatriz et al. Action observation and acquired motor skills: an FMRI study with expert dancers. Cerebral cortex, v. 15, n. 8, p. 1243-1249, 2005.

DOYLE-LUCAS, Ashley F.; DAVY, Brenda M. Development and evaluation of an educational intervention program for pre-professional adolescent ballet dancers: nutrition for optimal performance. Journal of Dance Medicine & Science, v. 15, n. 2, p. 65-75, 2011.

EUSANIO, Jacqueline; THOMSON, Paula; JAQUE, S. Perfectionism, shame, and self-concept in dancers: a mediation analysis. Journal of Dance Medicine & Science, v. 18, n. 3, p. 106-114, 2014.

Feltz, D. L., & Chase, M. A. (1998). The measure of self-efficacy and confidence in sport. Em J. L. Duda (Org.), Advances in sport and exercise psychology measurement (pp. 765-776). Purdue: Book Craffers.

GARCÍA-DANTAS, Ana; QUESTED, Eleanor. The effect of manipulated and accurate assessment feedback on the self-efficacy of dance students.Journal of Dance Medicine & Science, v. 19, n. 1, p. 22-30, 2015.

GRUEN, Arno. The relation of dancing experience and personality to perception. Psychological Monographs: General and Applied, v. 69, n. 14, p. 1, 1955.

NORDIN-BATES, Sanna M. et al. Injury, imagery, and self-esteem in dance healthy minds in injured bodies?. Journal of dance medicine & science, v. 15, n. 2, p. 76-85, 2011.

PETRIDES, Kostantinos V.; NIVEN, Lisa; MOUSKOUNTI, Thalia. The trait emotional intelligence of ballet dancers and musicians. Psicothema, v. 18, n. 1, p. 101-107, 2006.

SILVA, Andressa Melina Becker da et al.Escala de Autoeficácia para Bailarinos (AEBAI): construção e evidências de validade. Aval. psicol. [online]. 2015, vol.14, n.1, pp. 83-88. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ainda na linha da reflexão "o bailarino tem que ser magro?" conversei com a bailarina Amanda Lana.

Amanda Lana

Amanda foi uma das minhas primeiras alunas de preparação física para bailarinos quando comecei a trabalhar e estudar essa área em parceria com a Compasso Academia de Dança.

Ela sempre foi muito talentosa e teve uma boa formação na Compasso, formação esta que incluía a preparação física comigo. Aos 15 anos ganhou uma vaga para estudar na Academie Princesse Grace, mesmo assim conta das dificuldades que passou com seu físico:

"Eu passei sim dificuldades por causa do meu físico, e até hoje tenho que tomar muito cuidado. Como eu sou relativamente baixa, o meu peso deve ser bem controlado e estável. Passei por uma época que estava bem acima do peso, e realmente não estava melhorando na questão da técnica da dança.

Por sorte tive pessoas me alertando e me ajudando a passar por isso. É sim desconfortável e abalável. Até hoje eu estou sempre lutando contra minhas vontades e tentando manter um corpo saudável. Tem horas que eu estou tão preocupada com a minha aparência que parte do meu trabalho não serve de nada porque não tenho a concentração no que realmente importa. Agora eu lido bem melhor com essa situação e aos poucos estou conhecendo melhor meu corpo.

Na minha turma eu era a única com esse problema. Eu tentava não ligar e não dar muita importância para o que os outros falavam. Tive de emagrecer 4 kg para ter certeza que seria aprovada para o ano seguinte."

Quando Amanda me enviou esse comentário eu logo pensei: "o que será que é estar acima do peso para Amanda? Qual o padrão ou referência ela está usando para chegar nessa conclusão?" Ainda mais por conhecê-la e saber que o que ela chama de "acima do peso" é de longe algo que poderia influenciar na sua melhora técnica. 

Amanda Lana



Quando Amanda voltou de férias para o Brasil ameaçada de perder sua vaga por causa desses tais 4 quilos, ela me procurou e fez um intensivo no Bastidores. Trabalhamos junto com o acompanhamento que ela estava fazendo com nutricionista buscando diminuir sua massa gorda e aumentar sua massa magra. Por mais que as suas circunferências diminuíssem e ela aparentasse mais magra, o peso na balança não diminuia e Amanda sofria com a pressão dos 4 quilos.

Amanda Lana treinando no Bastidores durante suas férias no Brasil


Então eu disse a ela (e me lembro como se fosse ontem): "Amandinha, vamos fazer o seguinte. Vamos diminuir o seu percentual de gordura, e aumentar sua massa magra, com isso você vai ficar aparentemente mais magra, mesmo que o seu peso não diminua. Quando você voltar para a sua escola eu duvido que o seu diretor vai querer te pesar, porque ele vai VER que você está mais magra. E se ele o fizer, você levará um relatório meu mostrando as suas composições corporais e que você perdeu até mais do que quatro quilos de gordura, mas que como seus músculos pesam mais que gordura, isso não é visível na balança."

Não sei se Amanda foi pesada ou não na escola. Só sei que não precisei fazer relatório e esse ano ela se forma. Além do mais, já está contratada pela Royal Swedish Ballet!

Amanda é o exemplo de talento e trabalho em equipe.


Amanda Lana






Continuo a refletir sobre a questão "O Bailarino tem que ser magro?", o que é "ser magro"?, até que ponto a necessidade de "ser magro" ajuda ou atrapalha uma carreira?

Pensando nisso busquei ajuda de duas pessoas que dividiram a caminhada da dança comigo em momentos distintos da minha carreira. 

Hoje posto sobre a Bruna Bizzotto. Bruna estudou comigo no Centro de Formação Artística do Palácio das Artes - CEFAR. Dividimos turmas, coreografias e até o mesmo papel como solistas. Enfrentamos juntas a pressão do "senão você não subirá ao palco" ou "senão você será substituída", acredito que nos tornamos mulheres mais fortes. Mas a custo de que? 

Bruna dividiu alguns sentimentos dela conosco:

"Sempre passei por esse problema do físico! Nunca fui magrinha e sempre tive bumbum e coxas avantajadas que me fizeram ouvir sempre que estava gorda, que para conseguir um papel ou mesmo me manter na cia teria que emagrecer e ficar igual fulana... Sempre! Passar por isso, num período tão complicado como a adolescência, teve (e ainda tem) reflexos diretos na auto estima, na confiança e em diversos outros aspectos da vida! Eu era uma boa bailarina, esforçada, dedicada e talentosa. Sei reconhecer isso hoje mas antes era impossível pra mim! De nada adiantava ser boa sem ser magricela! Certa vez eu fui na minha fisioterapeuta anja (Andrea Mourão) e ela me disse que eu estava bem magra. Eu contei que minha diretora havia acabado de me falar que eu tinha que emagrecer uns 5 quilinhos pelo menos. Ela me sentou, me disse que se eu emagrecesse mais que aquilo, ia comprometer meu ciclo menstrual e que eu perderia massa muscular tão importante para o trabalho de um bailarino (e principalmente para o tipo de trabalho da cia que eu dançava). 

                            
                                                                             Bruna Bizzotto


Minha criação e apoio familiar principalmente por parte da minha mãe nunca me deixaram adoecer (apesar de diversas tentativas de tomar remédio escondido, tentar forçar vômito, parar de comer...)! Mas o que mais me chateia é ver que agora, que parei de dançar, e ganhei mais peso, eu não curti o meu corpo enquanto ele estava em sua melhor fase! Eu era linda e me fizeram acreditar que era gorda, que não estava bem e que ser gorda é a pior coisa do mundo!  


                                                                       Bruna Bizzotto


Não sou frustrada e acho que parar de dançar foi a melhor escolha da minha vida. Abriu meus horizontes, me fez deixar de abaixar a cabeça pra tudo que me é imposto, me fez reconhecer o meu valor real e entender que sou muito mais do que um corpo que, independente da qualidade do que ele desenvolve e de seu talento, se não está extremamente magro, de nada adianta!

Um beijo Babi! Que você consiga fazer a diferença nesse mundão da dança e em tudo que você se propõe!

Sucesso SEMPRE!"

Quando fiquei sabendo que a Bruna tinha parado de dançar meu coração doeu. Será que se os professores tivessem sido mais conscientes Bruna estaria dançando até hoje? Afinal de contas, o que são 5 quilos? Que medida mágica é essa que torna uma pessoa uma bailarina? Meu sonho e batalha de hoje é que os professores troquem a frase: "você tem que emagrecer!" ou "você está 5kg acima do peso" por "vamos te encaminhar para uma equipe multidisciplinar composta por profissionais qualificados para medir o seu percentual de gordura, circunferências, flexibilidade, força, testes de sangue e propor um treinamento complementar acompanhado por nutricionista, sem sofrimento, cuidando da sua saúde física e mental, afinal de contas, estamos todos do mesmo lado...".

Será que isso vai ser possível um dia? O Bastidores foi criado pra isso, mas a batalha é tão longa e intensa! Talvez daqui uns 20 anos eu releia esse post e me sinta orgulhosa por ter conseguido fazer o que a Bruna me incentivou:

"fazer a diferença nesse mundão da dança e em tudo que você se propõe".


       
                                   
                                                                         Bruna Bizzotto